Entrevistas

Canary sobre hip hop com alma e sair de trás do piano

Canary cantando ao microfone, com a frase Faça coisa foda
De
Austrália
Mora em
Norte da Tailândia
Projeto
Canary, com a banda Modus Operandi
Som
Hip hop com alma (soul-infused hip hop)

Canary é cantora, compositora e performer da Austrália. Por quase toda a vida ela escreveu e tocou ao piano. O projeto atual, Modus Operandi, vai no sentido oposto: hip hop com alma, uma banda montada com músicos do mundo todo e nenhum piano no palco.

Filmamos as sessões dela no norte da Tailândia e sentamos para conversar depois, sobre como as músicas foram escritas, como a banda se formou e o que muda quando você sai de trás do instrumento em que sempre se escondeu. A entrevista completa está aqui.

Por onde você começou, e qual é o lugar do piano nisso?

Comecei a tocar piano aos 9 anos, aprendendo sonatas e ragtime. Depois passei a compor, principalmente ao piano e com a voz. Muita coisa antiga que escrevi era bem Disney, como o Gabriel diria. Era o espaço para expressar meu lado melancólico. Eu era adolescente, me apaixonei pela primeira vez, estava passando por um término. Sentimentos de adolescente, e o piano era para onde eles iam.

Com o tempo continuei escrevendo ao piano, o que é lindo, e ainda toco. Mas senti que havia um lado grande de mim que não se expressa assim. Então esse projeto surgiu.

Como você descreveria o projeto?

Não é hip hop puro. Vamos chamar de hip hop com alma (soul-infused hip hop). Tenho tentado, o máximo possível, achar jeitos de essa outra parte de mim se expressar e se divertir, para eu não ter que ser a garota triste do piano no palco. Eu queria que um outro lado meu fosse visto, e tocar com outras pessoas. E tem sido incrível.

Agora estou no norte da Tailândia, conhecendo gente do mundo todo. Cada pessoa da banda é de um canto diferente do planeta.

Como você decidiu a formação da banda?

Pensei muito nisso. Todas as músicas já estavam escritas, e eu tinha outra versão delas, produzida, mas não sabia como funcionariam ao vivo. Escolhi baixo, bateria, uma guitarra e o pedal de voz que eu tenho, que faz o papel de uma guitarra base ou de um piano.

Eu queria especificamente não tocar piano neste projeto. Isso foi uma parte importante de aprender a me expressar sem me esconder atrás do instrumento em que eu me apoiei por muito tempo. Quanto aos músicos, eu simplesmente os vi na rua, ou mandei mensagem: entra na minha banda. Eles responderam: tá, vamos nessa.

Como foi o primeiro ensaio?

Uma história engraçada. Um apagão enorme atingiu a cidade por dois ou três dias, porque algumas das torres gigantes caíram. O primeiro ensaio e o primeiro show estavam marcados para aquele fim de semana. Chegamos ao estúdio torcendo para a luz voltar por mágica, e ficamos todos sentados, decepcionados. Tínhamos uma garrafa de água com a luz de um celular embaixo, tudo brilhando no escuro, e o Gabriel tocando cajón. Todo mundo no acústico. Foi hilário.

Dali em diante passamos mais tempo nos familiarizando com as músicas, e cada um começou a contribuir com algo, uma ideia aqui, um detalhe ali. Ter com quem colaborar em algo novo para mim tem sido muito bonito.

Você tem uma música favorita?

Uma das que gravamos hoje: Excalibur. Ironicamente, é uma música de adoração. Uma adoração à música. Venho de uma família muito religiosa, e houve muita luta e muita dor por causa disso. Essa música é uma reinterpretação, com bastante linguagem religiosa: “This music is my cathedral and my feet will take me far” (“Esta música é a minha catedral e meus pés vão me levar longe”). É uma das minhas favoritas porque tem um elemento de cura para mim.

Cada verso expressa uma parte diferente de mim. O primeiro tem uma ameaça: não passe por cima de mim, ou posso acabar com você. O segundo é sobre acreditar em mim, no que estou fazendo. Tem uma linha nele sobre vozes na minha cabeça dizendo que eu sou a escolhida. Estou falando, literalmente, de delírio de grandeza, de estar confusa e cética comigo mesma enquanto acredito que posso fazer algo muito legal. Ainda não cheguei lá. Tenho muito para crescer. Mas é ótimo cantar palavras que deixam muito espaço para eu crescer até elas. Isso reforça meu próprio ponto de vista, de acreditar em mim e continuar, para continuar melhorando.

A música inteira vai de não mexa comigo, para eu acredito em mim, para este é um lado meu que você provavelmente não conhece.

Tudo é sobre fazer coisa foda.

Você queria gravar as músicas e os vídeos?

Cem por cento em dúvida. Eu não queria. Estava super resistente. Tocávamos juntos havia só uns três meses. Eu não fazia ideia de como ia ser. Será que funciona com meu pedal de voz com harmonia a três vozes? Pode ficar ruim. Eu não sabia, então vamos descobrir. Conforme avançamos, vimos que tínhamos uma vibe muito boa e estávamos fazendo coisas legais. Aí o Gabriel sugeriu gravar. Tá, vamos.

Como foi ser filmada?

É ao vivo, então tentei equilibrar como uma apresentação com a banda: como vou interagir com eles, estamos na mesma página? E também ter alguns momentos de troca com a câmera. Assisti a algumas gravações e pensei: queria ter me movido mais. Na hora eu não tinha certeza. Talvez parecesse engraçado, talvez não pegassem o enquadramento, o que é totalmente irrelevante de se pensar. Assistindo depois, era assim que eu queria ter feito na hora. Foi uma das primeiras vezes que fiz isso.

Isso entrou no meu processo de performance, e foi um dos maiores aprendizados do projeto. Como me apresentar sem ficar presa atrás de um piano? Como me apresentar com as mãos livres? Como fazer isso combinar com a vibe da música? Estou tentando fazer tudo a partir de um lugar de brincadeira.

O que você diria para a Canary de antes?

Compre um cabo XLR mais longo, para poder se mexer mais. Que eu tenho, aliás, o que é engraçado. Use o cabo XLR. Não tenha medo de se entregar mais aos momentos. Faça coisa foda.


Filmado no norte da Tailândia. A entrevista original é em inglês.

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